MÁFIA

A palavra "Máfia" apareceu pela primeira vez  em um documento administrativo no ano de 1865, em um relatório do chefe da polícia de Palermo, que mencionava o poder crescente da organização criminosa. Seu nascimento é cercado por um grande número de lendas que procuravam dar uma origem nobre à organização, para garantir sua legitimidade junto a grandes parcelas da sociedade siciliana.

Segundo uma dessas lendas, a organização teria nascido durante as Chamadas "Vésperas Sicilianas", revolta organizada pela população local contra o domínio francês, em 1282. A multidão enfurecida teria gritado as palavras de ordem "Morte alla Francia Italia Anela", cujas iniciais formavam a palavra Máfia. Outro mito apresenta a Máfia como uma herança dos "Beati Paoli", uma sociedade secreta do século XVIII cujos membros aderiam a um pacto de ajuda mútua e obediência a uma lei comum.

Segundo a lenda, durante uma revolta dos sicilianos conhecida como "Vésperas Sicilianas" (acima) contra o domínio francês do século XIII, as iniciais de "Morte alla Francia Itallia Anela" teriam dado origem  ao nome Máfia.
Segundo a lenda, durante uma revolta dos sicilianos conhecida como "Vésperas Sicilianas" (acima) contra o domínio francês do século XIII, as iniciais de "Morte alla Francia Itallia Anela" teriam dado origem ao nome Máfia.

A história da Máfia começa de fato na década de 1860, mas as raízes do fenômeno são um pouco mais remotas. Elas se encontram nos primeiros anos do século XIX, quando o poder do banditismo, a corrupção e a frágil fronteira entre legalidade e ilegalidade marcavam a vida da Sicília sob o domínio dos Borboun.

Em 1838, o procurador de Trapani, Pietro Calá Ulloa, descreveu ações espantosamente parecidas com as da Máfia em um relatório enviado a um dos ministros de Fernando II, soberano do reino das Duas Sicílias, governado pela dinastia dos Borboun.Embora chame a atenção para as carências do Estado e a dificuldade das autoridades em garantir a ordem pública, o relatório deixa bem claro que os Borboun tentaram restringir o poder dos barões e impor  a noção de autoridade central na Sicília. No entanto, embora a aristocracia tenha perdido poder no plano político e jurídico, a elite local conservou suas posições no plano econômico social.

Os Bourbon, dinastia que governou a Sicília até 1860 e abriu caminho para o surgimento da Máfia. Acima o rei Fernado I e sua família.
Os Bourbon, dinastia que governou a Sicília até 1860 e abriu caminho para o surgimento da Máfia. Acima o rei Fernado I e sua família.

Os grandes latifúndios da região raramente eram divididos e, quando isso ocorria, a partilha favorecia o patrimônio dos grandes proprietários ou dos ricos gabellotti, espécie de latifundiários que tomavam em "gabela", de aluguel, as terras dos proprietários ausentes.

Em compensação, os camponeses eram os grandes perdedores, num processo que os privou dos direitos comunitários sobre a terra, sem oferecer nenhum tipo de contrapartida. A ausência de uma verdadeira reforma agrária acabou criando um clima de tensões políticas e sociais que geraram sucessivos tumultos e revoluções nos anos de 1820, 1837 e 1848, além de alimentarem uma criminalidade endêmica.

Vários estudos do século XIX costumavam diferenciar a Máfia dos delinquentes comuns. Entretanto, pesquisas recentes nos mostram que talvez não seria bem assim pois no final do século XIX os bandidos passaram a ser os pilares de certas famílias mafiosas, que começaram a realizar  as mesmas atividades praticadas pelos antigos malfeitores. Ainda assim, a Máfia não foi apenas uma mera evolução do banditismo comum, porque, seu desenvolvimento inicial acontece dentro do mecanismo criado pelos Borboun para combater o crime.

Para enfrentar os problemas do banditismo, os reis sicilianos delegaram a administração da ordem pública a empresas encarregadas de zelar pela segurança dos bens e das pessoas em todas as províncias da região. Em caso de delito, as empresas eram obrigadas a pagar indenização à vítima. Esse sistema levou as empresas a se aproximar do universo da criminalidade e, por vezes, até a recrutar criminosos.

Além disso, o combate ao crime também ficava a cargo de guardas particulares chamados campieri, eles eram contratados pelos grandes propietários e funcionavam como uma espécie de polícia privada a serviço dos latifundiários. Esses vigilantes eram recrutados com base no medo que inspiravam, geralmente por terem cometido um delito ou assassinato.

Ao utilizar as empresas de armas e os campieri para combater o crime, o Estado dos Bourbon "terceirizou" sua autoridade e abriu mão do monopólio do estatal da violência. Os barões e os grandes proprietários também preferiam fazer justiça com as próprias mãos e se tornaram protetores dos bandidos. Nesse sistema, a administração da ordem pública era, no mínimo, precária. A instabilidade levava o governo a desencadear periodicamente ofensivas de repressão feroz cuja principal conseqüência era aumentar sua impopularidade. A mistura entre a fragilidade do Estado, a incapacidade de garantir a ordem pública e as múltiplas formas de legitimação do crime organizado levaria ao surgimento da "honorável sociedade".

A Expedição dos Mil (também chamada de expedição dos camisas vermelhas) desembarca na Sicília ocidental, Giuseppe Garibaldi (no centro de chapéu à mão) conquistaria toda a ilha tirando-a da casa dos Bourbon.
A Expedição dos Mil (também chamada de expedição dos camisas vermelhas) desembarca na Sicília ocidental, Giuseppe Garibaldi (no centro de chapéu à mão) conquistaria toda a ilha tirando-a da casa dos Bourbon.

Foi com a criação do Estado italiano democrático e unificado, em 1861, que a Máfia se legitimou definitivamente na Sicíla. Quando Garibaldi desembarcou na ilha seus mil voluntários, em 1860, sua expedição suscitou uma esperança imensa e despertou o entusiasmo popular. No entanto, em poucos meses, a esperança converteu-se em amargura, e o povo siciliano passou a sentir que a revolução de 1860 lhe fora confiscada. O exercício autoritário do poder pelos governos de direita que se seguiram e a falta de reforma agrária frustaram as expectativas do campesinato e das elites urbanas com o novo governo.

Ao mesmo tempo, a instauração do serviço militar obrigatório, do qual os sicilianos eram isentos na época dos Bourbon, levou milhares de desrtores a se rebelarem na Sicília. Para conter a insubordinação, o novo governo unitário enviou a região diversas expedições militares que só agravavam o divórcio entre o governo e a população. Além disso, o novo Estado apoiou-se em forças policiais que nem sempre colaboravam (o novo corpo de carabineiros reais enviados à Sicília a partir de 1861, que nem sequer conhecia o dialeto local), a polícia nacional e os guardas rurais designados pelo prefeito para garantir a segurança no campo.

Os guardas rurais foram escolhidos pelo prefeito porque tinham conhecimento do terreno e pela eficácia, mas não tinham um respeito muito grande pela lei. Foi a essa guarda regional que se juntou a milícia montada, formação saída das empresas de armas, que haviam sido banidas em 1860 por decreto de Garibaldi. Abolida e restaurada em diversas ocasiões, a milícia montada foialvo de muitas críticas por ser considerada um viveiro da criminalidade e o instrumento da Máfia nas áreas rurais. Apesar das críticas, ela só foi definitivamente suprimida em 1877.

Todas as condições de um descontentamento em massa estavam presentes na Sicília da década de 1860: Imobilismo no plano econômico e social, continuidade da política de segurança pública dos Bourbon, intensificação da repressão. No entanto, a Sicília era menos o teatro da violênciasocial em massa que o de uma violência utilizada por uma parte das classes médias silicianas em busca de mobilidade social ou política.

Leopoldo Franchetti e sua esposa Alice. Liberal , que cresceu sob a influência do intelectual positivismo de John Stuart Mill , Leopoldo alertou já em 1876 sobre a situação na Sicília.
Leopoldo Franchetti e sua esposa Alice. Liberal , que cresceu sob a influência do intelectual positivismo de John Stuart Mill , Leopoldo alertou já em 1876 sobre a situação na Sicília.

Leopoldo Franchetti, liberal toscano autor de uma pesquisa notável sobre a situação econômica e social da Sicília em 1875-1876, observou que lá existia uma verdadeira "inclinação para a violência" nas mãos de uma classe média audaciosa, que a utilizava para ascender socialmente de forma rápida num contexto que a mobilidade era limitada. Contudo, durante muito tempo, a Máfia continuou a ser vista como herança do feudalismo e produto da pobreza e do subdesenvolvimento. Alguns historiadores atuais não colocam o berço da Máfia no interior da Sicília, mas sim nas zonas economicamente dinâmicas, como os laranjais e as aldeias da Concha de Ouro, a região ao redor da cidade de Palermo.

Mulheres e crianças nas ruas de Palermo em 1910. Foi em torno da capital da Sicília que a Máfia se desenvolveu durante as últimas décadas do século XIX e início do século XX
Mulheres e crianças nas ruas de Palermo em 1910. Foi em torno da capital da Sicília que a Máfia se desenvolveu durante as últimas décadas do século XIX e início do século XX
Pasquale Villari
Pasquale Villari

No fim do século XIX, Pasquale Villari, um dos primeiros intelectuais italianos a refletir sobre a oposição entre o norte e o sul do país, afirmou que "grande parte dos delitos são cometidos pelos habitantes da cidade de Palermo, que na maioria não são pobres. Geralmente são fazendeiros ou propietários e cultivam admiravelmente seus laranjais. Na Concha de Ouro, a agricultura prospera; a grande propriedade não existe; o camponês é abastado, mafioso e perpetra um grande número de delitos".

No início da década de 1880 foi dado mais um passo no processo de legitimização das "elites violentas", expressão da fragilidade do Estado: a aliança entre o crime organizado e os poderes políticos. Aproveitando-se da instauração de uma democracia formal, da adoção gradual do sufrágio universal e do hábito dos governos centrais de delegar poderes importantíssimos à classe política local em troca de apoio, a Máfia se tornou o alicerce de um poder destinado a durar mais de um século.

Mafiosos sicilianos aguardam julgamento após serem presos em 1928
Mafiosos sicilianos aguardam julgamento após serem presos em 1928

No final do século XIX e início do século XX mais de 4 milhões de imigrantes italianos chegaram à América do Norte. Em meio a essa avalanche humana estavam muitos napolitanos, calabrenses e sicilianos que eram, na sua maioria, camponeses desenraizados e analfabetos, arrancados de sua terra natal. Preocupados em proteger-se mutuamente, reuniram-se nos bairros mais pobres das grandes cidades da costa leste, como Boston, Nova Iorque, Filadéfia e Baltimore, onde buscaram recriar o país que haviam deixado para trás. Assim nasceram as Little Italys, no North Side de Boston ou no Lower East Side de Nova Iorque, que lembravam os bairros baixos de Nápoles, Palermo ou Bari.

As "Little Italys" recriavam na América os bairros pobres das cidades do sul da Itália
As "Little Italys" recriavam na América os bairros pobres das cidades do sul da Itália

Diante de um ambiente novo e hostil a comunidade imigrante buscou nas suas raízes uma forma de proteção: o sistema de clãs que se impusera há séculos na Sicília, combinando imteresses contraditórios de sitiantes submetidos ao arbítrio de latifundiários. Ressurgiram na América os comportamentos sociais herdados do passado e fundados sobre os laços familiares, todos informais, mas bastante poderosos. Mas a Máfia logo iria sofrer uma mutação nos EUA.

Os imigrantes italianos encontraram uma sociedade em que os espaços mais valorizados já haviam sido ocupados por outras ondas migratórias: seus predecessores irlandeses, alemães e judeus. Para enfrentá-los, o único método era a violência.

Alguns italianos impuseram-se sobre os demais, ou porque fossem mais ricos, mais influentes, ou porque podiam fornercer trabalho a seus compatriotas em pior situação na escala social, adiantar-lhes dinheiro,facilitar-lhes os trâmites burocráticos, o que, para os analfabetos, era uma experiência intransponível.

Um caso típico, analisada pelo sociólogo Francis Ianni, é a da família Lupollo. Por volta de 1915, o patriarca, Giuseppe Lupollo, era um homem reconhecido e temido entre os ítalo-americanos. Dos empréstimos pessoais aos seus conterrâneos passou a banqueiro, atividade que permitia dissimular práticas ilícitas, como jogatina, tráfico de drogas e, depois, o comércio de bebidas alcoólicas.

Membros da organização mafiosa "Mão Negra", (poderosa entre os imigrantes italianos) posam para a fotografia tirada por volta de 1900
Membros da organização mafiosa "Mão Negra", (poderosa entre os imigrantes italianos) posam para a fotografia tirada por volta de 1900

Até perto de 1910, a Máfia americana continuava a ser uma forma de organização social designada com freqüência como "Mão Negra". Compreendia várias "famílias" e limitava-se aos imigrantes sicilianos. Já recorria a extorção e a intimidação. Mesmo o tenor Enrico Caruso era constrangido a lhes pagar tributos. Lutas internas opuseram diversas famílias, algumas napolitanas, outras sicilianas, eram resolvidas com assassinatos que terminavam, por faltas de provas, sem condenações. A entrada nos negócios ilícitos ocorreu já no início do século, quando se infiltraram em setores ainda sem donos e propícios ao enriquecimento.

Mont Tennes
Mont Tennes

Mont Tennes manteve desde 1904 város salooms em Chicago, antes de ser reconhecido como rei do jogo na cidade. Em 1924, dizia-se que comandava perto de 200 espeluncas de jogo, que lhe rendiam em torno de U$$ 400 mil por ano. Big Jim Colosimo, também em Chicago, fazia fortuna com a prostituição. Em 1920, o arcebispo de Chicago recusou-lhe o funeral religioso. Mesmo assim, mais de 5 mil pessoas seguiram seu cortejo fúnebre.

 

 

Al Capone, chefão da Máfia na Chicago dos anos 20
Al Capone, chefão da Máfia na Chicago dos anos 20

A história da máfia no entre-guerras reconheceu dois períodos distintos: a década de 20 e a de 30.

Os anos 20 foram dominados pelo último avatar da América conservadora, a proibição das bebidas alcoólicas, imposta pela 18ª Emenda e pela Lei Volstead. "A produção, venda e o transporte de bebidas alcoólicas nocivas são proibidas no território dos Estados Unidos, assim como qualquer importação ou exportação das ditas bebidas." O texto da lei, omitindo a proibição ao consumo, abria as portas da ilegalidade na qual se aproveitaram os mafiosos sicilo-americanos, bem implantados nos pontos cruciais de distribuição: Boston, Nova York e, sobretudo, Chicago.

O grosso das bebidas vinha do Canadá pelos bootleggers dessas cidades. Por esta época constituíram-se os grupos rivais, as gangues, dirigidas por gangsters (palavra que desde então tornou-se popular) entre os quais alguns se tornaram célebres: John Torrio e Al Capone em Chicago, e Frank Costello em Nova York.

Chicago foi o melhor exemplo dos métodos que empregavam. Até 1923, eram várias as gangues que compartilhavam entre si os lucros advindos da proibição. Entre elas, o grupo comandado por John Torrio e aquele reunido na chamada "União Siciliana". Nos anos seguintes, esses dois grupos opuseram-se um ao outro tendo em vista garantir a supremacia ou mesmo o monopólio do tráfico da bebida. Houve assassinatos, seqüestros e extorsões, tanto sobre os meninos das gangues quanto sobre os cervejeiros e destiladores ilegais. Desse enfrentamento sangrento emergiu um vencedor: Al Capone.

Herdeiro do império criminoso de Torrio as sul da periferia de Chicago, impôs sua lei no cantão de Cook (englobando a cidade) por meio de métodos violentos e crimes executados por capangas. Um de seus rivais, Dean O Bannio, foi assassinado em sua floricultura, e o procurador adjunto de Ilinois, morto em seu próprio escritório. Em 1929, em convenção reunida em Atlantic City (Nova Jersey), já senhor absoluto do jogo, Al Capone compartilhava com outros gângsters o monopolio dso crime, organizado por bases geográficas, em território americano.